O melhor presente de Natal
Por Marcel Barros (*)
Nessa semana antes do
Natal, muita gente se pergunta que presente pode dar às pessoas e tem também
quem se sinta responsável por elaborar alguma mensagem ou palavra a dizer no
começo das festas de confraternização comuns nessa época do ano.
Aqui deixo minhas sugestões. Ao
enfrentar a agressividade do trânsito em nossas grandes cidades, ao testemunhar
a violência urbana de cada dia e ver ou ouvir os noticiários restritos a crimes
e escândalos nacionais, alguém mais sensível pode concluir: este mundo está
perdido. Nesse contexto, os enfeites de Natal, ao invés de mostrar o colorido
da festa, parecem ressaltar o vermelho do sangue. As melodias de Papai Noel
podem acirrar ainda mais a voracidade do comércio. E, nesse contexto, fica mais
difícil ainda escolher um significativo presente de Natal. Se eu pudesse,
proporia que cada um oferecesse a si mesmo/a e às pessoas que ama lentes novas
e diferentes para ver o mundo.
Nesses dias, os organismos
encarregados da segurança no Recife espalharam pelo centro da cidade várias
câmaras de vídeo para filmar atos de violência e culpar os responsáveis. De
fato, conseguiram captar flagrantes de assaltos, roubos e outros incidentes de
violência cotidiana. No entanto, depois do primeiro dia, a equipe encarregada de
rever as imagens gravadas se espantou. Constatou uma coisa surpreendente. De
fato, além dos incidentes de agressões que, de fato, ocorreram, as imagens
mostravam cenas comoventes de pessoas anônimas que ajudavam as outras. Anciãos
apoiados para atravessar uma rua. Jovens se dispunham a carregar pacotes de
pessoas cansadas. E muitas outras amostras de solidariedade humana. O mais
surpreendente foi que as cenas de bondade e solidariedade das pessoas eram
muito mais numerosas do que os incidentes de violência. A equipe especializada
em investigar crimes precisou mudar sua perspectiva de visão para constatar o
que não esperava ver e concluir o contrário daquilo que era a sua expectativa.
Aquelas pessoas descobriram que o Brasil não está tão mal, nem as pessoas são
tão más, como diariamente as redes de televisão e grande parte da imprensa
comercial fazem questão de mostrar. Ao contrário, há amor e solidariedade,
escondidos em cada coração humano e doidos para ser desenterrados. Mesmo que da
manhã à noite, sejamos atordoados por programas que mostram o mundo se acabando
com muitos crimes hediondos, defendem a violência policial e insinuam a
urgência da pena de morte, é possível ver algo diferente e apresentar o reverso
da história. Esse pode ser o melhor presente a ser intercambiado nesse Natal.
Sua Santidade, o Dalai Lama percorre o mundo inteiro para propagar que em cada
pessoa existe uma semente de compaixão. Segundo ele, a tarefa essencial é
ajudar as pessoas a fazer desabrochar e cultivar essa planta em sua vida.
Atualmente, o papa Francisco insiste em que redescubramos a alegria da boa
notícia de que Deus tem para o mundo um projeto de amor. Jesus nos revelou:
Deus assumiu a condição humana para fazer com todo ser humano possa se tornar
divino. Essa é a mensagem do Natal. Se assimilarmos isso e espalharmos essa
notícia, podemos contribuir para um renascimento de esperança. O poeta francês
Charles Peguy afirmava: "A esperança é uma menina. Ela é encarregada de
sempre recriar, onde o hábito é acomodar-se. Ela semeia inícios, onde a
tendência é propagar a decadência. Ela suscita vida nova, onde o ritual é a
rotina”. Que o nosso presente de Natal, a nós mesmos e uns para os outros seja
essa esperança, que como cantava a canção, é equilibrista, mas sempre capaz de,
sem se machucar, andar na corda bamba de sobrinha e ensaiar assim o mundo novo
que a cada dia renasce a partir do amor e da solidariedade humana.
(*) Marcelo Barros é monge beneditino, escritor e teólogo brasileiro
De: Adital, 18/12/2013
De: Adital, 18/12/2013


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