Imprensa veste carapuça de insufladora do pessimismo
Por Luciano Martins
Costa
A
imprensa brasileira, representada pelos veículos mais influentes, ou seja, os
jornais e revistas de circulação nacional e maior tiragem e os programas
noticiosos de maior audiência na televisão e no rádio, completa o balanço da
Copa do Mundo, encerrada no último domingo (13/7).
Como não
podia deixar de ser, um dos eixos que marcam as análises é a inevitável
comparação entre o sucesso do evento e o clima de pessimismo que a própria
imprensa havia criado antes de seu início.
Alguns
dos comentários publicados nesta terça-feira (15/7) têm como referência o
balanço público do torneio feito pela presidente Dilma Rousseff com parte do
ministério. Foi, claramente, um lance de oportunismo político, como quase toda
iniciativa de candidatos em período eleitoral. A diferença entre essa aparição
da presidente, ao lado de seus ministros, e manifestações anteriores da chefe
do governo, é que ela se dá em clima festivo.
Os
jornais tratam com abordagens distintas a exibição tática da candidata à
reeleição, que foi vaiada e ofendida por parte dos torcedores presentes à arena
do Corinthians na abertura da Copa e por um pequeno grupo após a final, no
Maracanã, quando entregou a taça aos vencedores.
Cada um
à sua maneira, os principais diários do País agasalham a observação, reiterada
pela presidente e alguns de seus ministros, de que a imprensa hegemônica
insuflou na sociedade um intenso pessimismo quanto à capacidade do Brasil de
organizar um acontecimento desse porte.
O Estado
de S. Paulo coloca
na reportagem sobre o balanço da Copa o selo “Eleições 2014”, numa tentativa de
limitar as declarações ao contexto da campanha presidencial.
A Folha
de S. Paulo faz
um registro burocrático da manifestação do governo, no caderno especial sobre a
Copa, contrapondo às declarações oficiais uma avaliação de obras de
infraestrutura inacabadas, algumas das quais haviam sido prometidas como parte
do projeto do Mundial.
O Globo assume a carapuça e traz na primeira página
uma foto da risonha presidente, ao lado de dois ministros, com o título: “De
que se riem?” (Continue lendo esta matéria. Clic abaixo, em:)
Focinheira
para vira-latas
É bem
possível que os editores do Globo saibam que a pergunta, associada à
imagem de governantes risonhos, tem como referência um poema do uruguaio Mario
Benedetti, que falava de ministros da ditadura militar naquele país.
No caso,
os representantes do governo riem do Globo e de outros veículos de comunicação,
que lhes deram a oportunidade de tripudiar publicamente sobre a onda de
pessimismo que acabou desmoralizada pelo sucesso da Copa do Mundo.
Uma
pesquisa apressada feita pelo Instituto Datafolha indica que 83% dos
estrangeiros que estiveram no Brasil entre os dias 12 de junho e 13 de julho
afirmaram que a organização da Copa foi ótima ou boa; 92% elogiaram o conforto
dos estádios e 82% declararam terem se sentido seguros andando pelas ruas das
cidades brasileiras.
Os
visitantes consultados representam 60 países, e a maioria deles tinha uma
expectativa desfavorável ao desembarcar por aqui, porque as notícias
reproduzidas pela imprensa internacional eram majoritariamente negativas.
Na
consulta, recebem notas positivas alguns dos quesitos mais criticados pela
mídia nos meses anteriores ao evento, como a estrutura oferecida aos
visitantes, o transporte, a segurança pessoal e até a qualidade do meio
ambiente nas cidades visitadas.
Interessante
também observar que as maiores notas foram dadas ao modo como os brasileiros
receberam os turistas: quase todos declararam que os anfitriões foram
simpáticos (98%) e receptivos (95%) e 84% consideraram os brasileiros honestos.
As piores notas foram para os preços de hospedagem, alimentação e transporte
aéreo.
Embora
apanhe um universo reduzido do total de visitantes, pois o Brasil recebeu mais
de um milhão de turistas de 202 países durante a Copa, a pesquisa contraria os
brasileiros que adoram detestar tudo que é nacional e idealizam tudo que é estrangeiro:
nada menos do que 69% dos visitantes disseram que morariam no Brasil.
Dois
registros curtos: o filho do atacante Klose ficou com a bola que um torcedor
entregou para ser autografada e dois torcedores alemães foram presos quando
embarcavam de volta ao seu país, por terem furtado uma pequena estátua que
estava exposta no aeroporto de São Paulo, em Cumbica.
Espera-se
que os fatos sirvam de focinheira para os vira-latas.
(*)
Luciano Martins Costa é jornalista e escritor
Publicado em 15 de julho de 2014 às
18h19, em WWW.viomundo.com.br

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