O caminhoneiro que quer
derrubar Dilma
Por Carlos Fernandes (*)
Existe um ditado popular que nos
alerta de que pior do que cuspir no prato em que você comeu é ter que voltar a
comer no prato em que você cuspiu.
É uma metáfora que se aplica
perfeitamente a uma parcela dos brasileiros que ascenderam socialmente na
última década. Ignorantes aos fatores políticos e econômicos que lhes
permitiram subir na vida, agora atentam bestialmente contra àqueles que
permitiram a sua libertação.
Um dos casos mais cristalinos
desse fenômeno atende pelo nome de Ivar Luiz Schmidt, um catarinense de 44 anos
que reside atualmente em Mossoró-RN.
Ivar é um dos “líderes” do
Comando Nacional dos Transporte (CNT), que convocou a “paralisação” dos
caminhoneiros para reivindicar a renúncia da presidenta Dilma Roussef.
É, seguramente, uma das pautas
trabalhistas reivindicatórias mais absurdas da história dos trabalhadores de
todas as atividades em todos os tempos. Tanto é que nenhum sindicato aderiu ao
movimento. O que esse cidadão considera como “greve” nada mais é do que a
manipulação de uma massa de manobra que ainda não percebeu que os interesses de
seu líder é extremamente divergente dos interesses de seus liderados.
A história de Ivar torna o
diagnóstico ainda mais assombroso. Caminhoneiro de profissão, conseguiu fazer
fortuna a partir da era Lula. Com a abertura de créditos aos trabalhadores que
se verificou à partir de 2003, o simples motorista de caminhão pôde abrir uma
pequena transportadora e, com a economia aquecida naqueles tempos, tornou-se um
bem-sucedido empresário na área de transportes da região.
Verificando o seu perfil no
Linkedin, uma página na internet utilizada para divulgar profissionais no mundo
inteiro, o austero empresário aparece como sócio da Roda Brasil Transporte LTDA
e representante comercial da MANOS implementos rodoviários. Nada mal para quem
ainda nos anos 90 não passava de um escravo dos transportadores que hoje se
tornou e, sobretudo, passou a escravizar.
Essa não é a primeira vez que
Ivar tenta sabotar a logística de transportes do Brasil e os próprios
caminhoneiros. Em março deste ano, mesmo após a Confederação Nacional dos
Transportadores Autônomos e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Transporte e Logística terem aceito a proposta do governo federal que atendia
aos seus anseios, Ivar continuou com os seus subordinados tentando travar as
rodovias federais.
Tanto daquela vez quanto nessa, a
tentativa foi um estrondoso fracasso. Mas não interessa, fervoroso eleitor do
partido que jamais lhe permitiu que saísse de sua condição de empregado, o que
importa mesmo para ele é fazer volume junto aos outros movimentos que querem
desmantelar a democracia brasileira e fazer o país retornar a época sombria
onde a recessão, o desemprego e a inflação eram verdadeiramente escandalosos.
Como se vê, está nítido que o que
motiva os atos desse senhor está a anos-luz da melhoria das condições de
trabalho dos caminhoneiros. O que realmente é obscuro são as razões que fazem
uma pessoa querer destituir um governo que democraticamente abriu oportunidades
para todos e com isso, tanto o beneficiou.
Ivar Schmidt não passa de mais um
idiota útil a serviço daqueles que sempre o trataram como cidadão de terceira
categoria cuja única serventia era a de ser explorado. Com a sua ascensão,
imagina infantilmente que pode agora fazer parte de uma elite classista,
racista e preconceituosa.
Na sua ânsia golpista, não
percebe que trabalha para que tudo que conseguiu com o apoio desse modelo de
governo que quer destituir, seja lhe retirado pelo estilo de governo que quer
alçar ao poder. Ou seja, não só cospe no prato em que comeu como pretende,
inconscientemente, comer no prato em que cuspiu.
Para entender tamanha insanidade,
é sempre bom recorrer a Simone de Beauvoir: “O opressor não seria tão forte se
não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.
(*) - Economista com MBA na PUC-Rio, Carlos
Fernandes trabalha na direção geral de uma das maiores instituições financeiras
da América Latina. Do Diário do Centro do Mundo, em 10/11/2015.
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