Desafio
aos pessimistas
Por Patrus Ananias (*)
Ao discorrer sobre a mentira,
Razumíkhin, patrício de Raskólnikov, o protagonista do romance "Crime e
Castigo", de Dostoiévski, reflete: "(...) mas nós não somos capazes
nem de mentir com inteligência!". Poderíamos, hoje, à luz das quimeras
propagandísticas repetidas "ad nauseam", adaptar aquela sentença:
"eles não são capazes nem de mentir com inteligência".
Refiro-me a diatribes do tipo
"o país quebrou" e "vivemos a pior crise da história". O
país não quebrou. Crises, já tivemos muitas. O que está posto hoje no Brasil
não é a disputa pelo receituário econômico mais adequado, é a disputa de
projeto político.
Para tanto é preciso constatar os
avanços nos últimos 12 anos. Movido pela agenda do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, tenho viajado o Brasil. Por conta do projeto
Territórios em Foco, quando mergulho numa região por três dias, experimento as
políticas públicas e ouço a comunidade local. As andanças revelaram um Brasil
muito maior do que a crise.
Em especial, chamou a atenção os
quatro anos da seca no semiárido nordestino. Há 12 anos poderíamos prever as
consequências da estiagem: levas de retirantes clamando por comida. O cenário
hoje é visceralmente distinto.
Agora vi quilombolas, antes
renegados, cultivando a terra e preservando suas tradições no Maranhão. Vi
filhos de agricultores familiares nas escolas Família Agrícola, no Espírito
Santo. No Ceará, vi plantação irrigada de feijão. Vi o sertanejo enfrentando a
seca amparado em 1,2 milhão de cisternas.
Vi a eficácia do Pronaf (Programa
Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que cresceu dez vezes nos
últimos 12 anos e hoje assegura recursos de R$ 28,9 bilhões. Vi agricultoras
recebendo títulos de terras das quais detinham apenas a posse. Vi filhos de
agricultores beneficiados pelo Prouni.
Viajando, vi a eficiência dos
programas implantados desde que o presidente Lula assumiu a Presidência, em
2003. Senti os efeitos positivos do Bolsa Família, do Benefício de Prestação
Continuada.
Quando Lula lançou o Fome Zero,
muitos disseram que o programa era inexequível. Duvidavam: "Acabar com a
fome?". Pois em 2014 vi a Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO) retirar o Brasil do mapa da fome.
Tudo isso não é passado, é
presente. A propaganda que avassala o país cria o desvario da "terra
arrasada", como se tudo o que foi construído nos últimos 12 anos tivesse
desaparecido. Ao contrário, foi incorporado de forma incontornável à nossa
realidade. Por isso precisamos ter consciência da ameaça representada pelo
pessimismo.
Claro que temos desafios pela
frente. É preciso avançar nas reformas agrária, tributária e urbana. Acelerar o
desenvolvimento da agricultura familiar, aumentando a produtividade,
priorizando a produção de alimentos saudáveis, incrementando o cooperativismo.
Radicalizar a distribuição do poder econômico, pois, sem ele, não teremos a
distribuição do poder político.
É necessário reconhecer que houve
equívocos nessa trajetória, mas não podemos olvidar nossas conquistas.
Precisamos perseverar na trilha do país de oportunidades iguais para todos.
Prognósticos irreais alimentam a incerteza e o medo; precisamos de expectativas
conscienciosas, que inflem o ânimo dos cidadãos.
Como o otimismo versejado por
João Cabral de Melo Neto ao final de seu "Morte e Vida Severina". Ao
descrever a desventura, apontou a esperança diante do nascimento do rebento:
"E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida/ (...) vê-la brotar
como há pouco/em nova vida explodida".
(*) - Patrus Ananias é Ministro do Desenvolvimento Agrário.
Fonte: Minas 247, de 04/11/2015, às 07h56
Aprecie com moderação!


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