Povo na rua derruba o
golpe... na Turquia
Por Alex Solnik (*)
“O povo na rua derruba a
ditadura” foi a manchete de um jornal da imprensa alternativa carioca dos anos
70, exprimindo mais um desejo do que noticiando um fato. Nessa
noite, na Turquia, pudemos ver que o povo na rua derrubou um golpe de estado.
Quando o presidente Erdogan
convocou o povo para ir às ruas soou como um convite ao suicídio, pois os
golpistas de parte do exército turco ocuparam o aeroporto da capital, invadiram
a televisão estatal, bloquearam pontes, sobrevoavam a cidade com helicópteros e
cercaram o Parlamento com tanques. E estavam, evidentemente, armados. Embaixadas
de vários países, inclusive de Portugal, comunicaram aos imigrantes para
ficarem em casa.
Aos poucos, no entanto, as
principais ruas foram se enchendo de gente desarmada oferecendo um espetáculo
inédito: o povo sem armas expulsou os golpistas do aeroporto, impediu o avanço
de tanques, sem que os articuladores da deposição de Erdogan tivessem tempo de
reagir.
Depois de algumas situações de
confronto que resultaram em algo como 17 mortes, nas quais aviões pró-Erdogan
derrubaram helicóptero golpista, entre outras, notícias de que o golpe falhara
foram emitidas, acalmando não só o país, como a vizinha Rússia e o distante
Estados Unidos, que aguardavam com ansiedade o desenrolar dos acontecimentos.
Soldados anti-Erdogan foram
presos pela polícia e conduzidos pelas ruas sob aplausos da multidão. Carros
abertos com civis carregando bandeiras passaram a desfilar em homenagem à
democracia. A tevê estatal foi desocupada.
Em poucas horas a rebelião anti-democrática
foi sufocada. Pela primeira vez um governo conseguiu derrotar os golpistas com
a força do povo.
Não há como não estabelecer um
paralelo com o caso brasileiro. O golpe do PMDB, com Temer à frente, que não
tem apoio militar, não usa tanques, nem helicópteros, prossegue dentro do
Congresso Nacional sem que um movimento popular o abafe. Ao contrário do povo
turco, que não se intimidou com o estado de guerra, tanques nas ruas e
helicópteros no céu, o povo brasileiro resume suas ações em “escrachos” que não
produzem os efeitos desejados.
Talvez falte um Erdogan para
convocar uma verdadeira resistência civil ao avanço do PMDB sobre a democracia
brasileira.
(*) - Alex Solnik é jornalista e escritor. Um dos mais acreditados analistas políticos do País - Publicado em 15/07/16.



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