Dilma é inocentada, mas
jornais ignoram
Do ponto de vista formal, a
presidente eleita Dilma Rousseff está sendo submetida a um julgamento. Há
espaço para testemunhas de defesa, acusação e, dentro de algumas semanas, os
senadores darão seu veredito na comissão especial de impeachment.
No entanto, por mais que se trate
de um julgamento de natureza política, a Constituição Brasileira garante que
nenhum presidente pode ser afastado sem que tenha cometido crime de
responsabilidade. Ou seja: é isso o que confere o caráter também jurídico ao
processo.
No processo em curso, Dilma é
acusada por professores de direito ligados ao PSDB, partido derrotado nas
últimas eleições presidenciais, de ter infringido a Lei de Responsabilidade
Fiscal, com suas "pedaladas fiscais", que seriam "operações de
crédito disfarçadas".
No entanto, ontem, o Ministério
Público Federal, que é o titular de qualquer ação penal, determinou o
arquivamento da investigação pedida pelo Tribunal de Contas da União, apontando
que nem houve operações de crédito e que, além disso, as chamadas "pedaladas"
não configuram ilícito penal.
Numa situação de normalidade
democrática, o impeachment seria sumariamente arquivado, como defendeu a
senadora Gleisi Hoffmann. Além disso, toda a imprensa nacional destacaria que a
presidente Dilma Rousseff, eleita por 54 milhões de eleitores, foi inocentada
do crime que lhe é imputado por adversários políticos.
No entanto, a notícia do pedido
de arquivamento feito pelo Ministério Público foi solenemente ignorada por
jornais como Folha de S. Paulo e Valor Econômico. Estado de S. Paulo e O Globo
a registraram, mas sem destaque em sua primeira página.
Isso demonstra que a imprensa
brasileira, que apoia o golpe parlamentar de 2016 assim como apoiou o golpe
militar de 1964, nem se preocupa mais em manter as aparências. O julgamento de
Dilma é apenas um simulacro, onde todos os atores parecem já conhecer, de
antemão, o resultado.
No entanto, por mais que seja um
jogo de cartas marcadas, a decisão do Ministério Público Federal coloca os 81
senadores diante de uma saia justa: como condenar a presidente Dilma por
"crime de responsabilidade", se o próprio MPF, titular da ação penal,
garante que não houve crime?
De Brasília, Brasil 247,
15/07/2016



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