Temer quebra promessa e decide manter
denunciados
"Se
houver denúncia, o que significa um conjunto de provas eventualmente que possam
conduzir a seu acolhimento, o ministro que estiver denunciado será afastado
provisoriamente. Depois, se acolhida a denúncia e aí sim a pessoa, no caso o
ministro, se transforme em réu, estou mencionando os casos da Lava-Jato, se
transformando em réu, o afastamento é definitivo", disse Temer.
Se alguém acreditou na promessa feita por Michel Temer em fevereiro deste ano, esqueça.
Se
ele honrasse sua palavra, Eliseu Padilha e Moreira Franco seriam afastados.
No
entanto, Temer decidiu esquecer a promessa, uma vez que ele próprio também foi
denunciado como chefe de quadrilha e por obstrução judicial.
Abaixo, reportagem da Reuters:
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou nesta
quinta-feira ao Supremo Tribunal Federal (STF) o presidente Michel Temer pelo
crime de organização criminosa e obstrução de investigações sob a acusação de
liderar um esquema de desvio de recursos, pagamento de propina e outros delitos
desde 2006 até os dias de hoje.
Janot denunciou Temer como o chefe do esquema do chamado grupo do
PMDB da Câmara. Ele também acusou criminalmente, por organização criminosa, os
dois principais ministros palacianos, Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira
Franco (Secretaria-Geral da Presidência), além dos ex-presidentes da Câmara Eduardo
Cunha e Henrique Eduardo Alves, do ex-ministro Geddel Vieira Lima e do
ex-assessor Rodrigo Rocha Loures.
A acusação afirma que o grupo atuou para arrecadar propina por
meio de diversos órgãos públicos, como a Petrobras, Furnas, Caixa Econômica
Federal, ministérios da Agricultura e da Integração Nacional, a Secretaria de
Aviação Civil e Câmara dos Deputados.
“Desde meados de 2006 até os dias atuais, Michel Temer, Eduardo
Cunha, Henrique Alves, Geddel Vieira Lima, Rodrigo Loures, Eliseu Padilha e
Moreira Franco, na qualidade de membros do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB), com vontade livre e consciente, de forma estável,
profissionalizada, preordenada, com estrutura definida e com repartição de
tarefas, agregaram-se ao núcleo político de organização criminosa para
cometimento de uma miríade de delitos, em especial contra a Administração
Pública, inclusive a Câmara dos Deputados”, afirma a denúncia.
Em nota, a PGR disse que “Michel Temer é acusado de ter atuado
como líder da organização criminosa desde maio de 2016”. Esta é a última grande
acusação de Janot à frente do comando do Ministério Público Federal. Seu
mandato termina no domingo.
Pelos cálculos apresentados na denúncia, o grupo de acusados
recebeu propina no valor de 587 milhões de reais. O Tribunal de Contas da União
(TCU) estimou que os prejuízos somente à Petrobras chegou a 29 bilhões de
reais.
Na denúncia, Janot pede que os acusados sejam condenados a pagar
este mesmo montante --cerca de 587 milhões de reais-- em reparação dos danos
materiais, assim como de reparação de danos morais no patamar de 55 milhões de
reais.
O procurador-geral também denunciou os executivos da J&F
Joesley Batista e Ricardo Saud por obstrução a investigações por terem,
juntamente com Temer, atuado para pagar propina a Eduardo Cunha e ao empresário
Lúcio Funaro para que eles não firmassem acordo de delação premiada. Funaro
confirmou em colaboração recentemente homologada pelo STF essa acusação --a
denúncia é reforçada pelas delações feitas por ele e outros envolvidos.
Joesley e Saud foram presos recentemente e tiveram a imunidade
penal suspensa após investigações apontarem que eles omitiram informações da
colaboração que firmaram.
Janot pediu nesta quinta a rescisão do acordo dos dois por
descumprimento de cláusulas, mas as provas apresentadas por eles continuam
válidas. O ministro Edson Fachin, do STF, deu dez dias para os colaboradores se
manifestarem antes de decidir sobre a rescisão.
Nas 245 páginas da denúncia, Janot afirma que Temer --então
presidente do PMDB-- foi o “grande articulador” para a unificação do apoio do
partido na distribuição de cargos no governo, ainda na época da gestão Lula.
Era ele que, por exemplo, atuava para resolver eventuais obstruções em votações
no Congresso comandadas por Eduardo Cunha. O procurador-geral disse que Temer e
Cunha repartiam propinas.
Segundo a acusação, a relação do grupo com o governo petista foi
abalada na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff com a exoneração de Moreira
Franco do governo. A partir daí, houve uma atuação para derrubar Dilma e fazer
Temer, vice, ascender ao comando do país em um rearranjo com forças políticas,
mantendo o esquema criminoso.
Para ir a julgamento, a denúncia precisa ser encaminhada pelo
Supremo à Câmara dos Deputados, a quem cabe autorizar ou não a corte a analisar
a acusação feita por Janot.
Na véspera, o STF adiou para a próxima quarta-feira uma decisão
sobre se a tramitação de uma eventual denúncia de Janot ficaria suspensa até a
conclusão de investigações sobre suspeita de omissão de informações no acordo
de delação por executivos da J&F. A defesa de Temer apresentou nesta noite
uma petição ao Supremo pedindo que a denúncia não seja enviada à Câmara dos
Deputados antes de quarta-feira.
Sem fazer referência ao pedido da defesa, Fachin divulgou um
despacho no qual informa que não encaminhará a denúncia imediatamente à Câmara,
para aguardar o julgamento de quarta-feira.
No mês passado, a Câmara rejeitou autorizar o STF a julgar
denúncia de corrupção contra Temer. A acusação foi um desdobramento da delação
premiada de executivos da J&F, holding que controla a JBS.
“Marcha irresponsável”
Temer classificou de “marcha irresponsável” a apresentação da
segunda denúncia por Janot e disse que o procurador-geral coloca em risco o
instituto da delação premiada.
Em texto distribuído pela Presidência da República, Temer acusou
Janot de “não cumprir com obrigações mínimas de cuidado e zelo em seu trabalho,
por incompetência ou incúria”.
“Ao aceitar depoimentos falsos e mentirosos, instituiu a delação
fraudada. Nela, o crime compensa. Embustes, ardis e falcatruas passaram a ser a
regra para que se roube a tranquilidade institucional do país”, disse o texto.
Em nota, Moreira Franco reiterou que jamais participou “de
qualquer grupo para a prática do ilícito”.
“Essa denúncia foi construída com a ajuda de delatores mentirosos
que negociam benefícios e privilégios. Responderei de forma conclusiva quando
tiver conhecimento do processo”, afirma Moreira Franco.
A assessoria de imprensa de Padilha foi na mesma linha, afirmando,
também em nota, que a denúncia “está amparada em delatores que, sem compromisso
com a verdade, contaram as histórias que pudessem lhes dar vantagens pessoais
ante o Ministério Público”.
Desse modo, continua a nota, a inexistência de provas levará o
Poder Judiciário a não acolher a denúncia e decidir pela inocência do ministro
da Casa Civil.
A defesa de Geddel --que está preso na penitenciária da Papuda, em
Brasília-- rechaçou “categoricamente às imputações veiculadas na denúncia
oferecida, de inegável fragilidade narrativa e probatória, reservando-se a
rebatê-las em juízo, quando oportunizado o contraditório”.
Já o PMDB lamentou “mais um ato de irresponsabilidade realizado
pelo procurador-geral da República”.
“Toda
a sociedade tem acompanhado os atos nada republicanos das montagens dessas delações.
A Justiça e sociedade saberão identificar as reais motivações do procurador”,
disse o PMDB em nota.
De
Brasília (Reuters), 14/09/2017. Publicado em Brasil 247, em 15/09/2017





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