Funaro diz que Temer,
Cunha e Alves levaram R$ 250 milhões da Caixa

Presidente Michel Temer (Foto: Darren Ornitz/Agência Reuters de 20/09/2017)
Em
delação premiada, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro afirmou que o grupo político
formado pelo presidente Michel Temer e pelos ex-deputados Eduardo Cunha e
Henrique Alves recebeu cerca de R$ 250 milhões em propinas decorrentes de
créditos da Caixa Econômica Federal, repassados pelas vice-presidências de
Pessoa Jurídica e Fundos de Governo e Loterias. As duas áreas foram controladas
pelo PMDB e comandadas por Geddel Vieira Lima e Fábio Cleto. Operador
financeiro do partido, Funaro disse que Cunha funcionava como um “banco de
propina” para deputados e, depois, virava o “dono” dos mandatos de quem era
beneficiado.
O doleiro afirmou não saber exatamente o valor da
propina repassada a Cunha, “mas sabe que este sempre distribuía parte da
propina recebida com Henrique Eduardo Alves e Michel Temer, fora outros
deputados aliados”.
O ex-ministro Geddel Vieira Lima ocupou o cargo na
Caixa entre 2011 e 2014. Segundo Funaro, apenas na área de Geddel o grupo
liberou entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões para empresas em troca de vantagens.
Um valor igual ou superior a este teria sido liberado pelo setor comandado por
Cleto. Funaro disse que Geddel recebeu, sozinho, no mínimo R$ 20 milhões e
continuou a operar mesmo depois de deixar o cargo, até fevereiro de 2015.
A assessoria do Planalto afirmou, por e-mail, que
“o valor da delação e das palavras do doleiro Lúcio Funaro é zero, como já
registrou a própria Procuradoria-Geral da República”.

Trecho da
delação de Lúcio Funaro, operador do PMDB – (Imagem: Reprodução)
Para o Grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley
Batista, relatou Funaro, foram liberados cerca de R$ 3,04 bilhões em troca de
propinas. Foram R$ 1,35 bilhão para a holding J&F e o restante para
empresas do grupo — R$ 200 milhões para a Vigor, R$ 250 milhões para a Flora e
R$ 300 milhões em crédito para exportação para a Eldorado, além de R$ 940
milhões de debêntures adquiridas. Os irmãos Batista só não pagaram o pedágio
dos políticos, segundo o delator, para o empréstimo de R$ 2,7 bilhões feito
para a compra da Alpargatas e outro R$ 1 bilhão tomado pela Seara — os dois
feitos após Geddel deixar o cargo. Em uma única operação, de R$ 300 milhões
para a holding J&F, o grupo político de Temer teria recebido R$ 9,75
milhões. O percentual das propinas, segundo o delator, variava de 2,7% a 3,4%
da operação.
(Merchandising)
Pagamentos entre 2013 e 2015
O grupo também recebeu propina de operações do FI-FGTS.
Segundo Funaro, a indicação de Fábio Cleto para a área de fundos e loterias da
Caixa foi feita por Eduardo Cunha e Henrique Alves a Antonio Palloci, que
encaminhou o pleito ao ex-ministro Guido Mantega. Funaro disse que soube por
Cunha que Temer “avalizou a indicação”.
A primeira operação ilícita do FI-FGTS, segundo
ele, foi a liberação de valores para a Cibe, empresa do Grupo Bertin. A propina
alcançou R$ 12 milhões — 4% do total da operação. Bertin também teria pagado
propina por um crédito de R$ 2 bilhões dado à SPMar, concessionária do Rodoanel
em São Paulo, outra empresa do grupo. A propina teria igualmente beneficiado
Cunha, Henrique Alves e Geddel e, segundo Funaro, os pagamentos foram feitos
pela empresa Contern entre março de 2013 e fevereiro de 2015 por meio de notas
fiscais fictícias.
Para entregar dinheiro em espécie, contou Funaro,
Bertin teria usado a empresa Alambari Construções. Funaro disse que Silmar
Bertin lhe contou que em 2010 saíram do caixa da empresa R$ 50 milhões para
doações eleitorais por caixa 2. A SPMar afirmou, em nota, que os financiamentos
ao Rodoanel e para empresas da família Bertin sempre seguiram o trâmite normal
e as doações eleitorais se limitaram a recursos devidamente declarados.
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Outros lados
A defesa de Eduardo Cunha nega as acusações do
reincidente em delações Lúcio Funaro e afirma que sua atuação parlamentar
sempre se deu dentro dos limites legais.
A defesa do ex-ministro Geddel afirmou que não se
manifesta sobre documento ao qual não teve acesso.
A J&F informou que os colaboradores
apresentaram documentos que complementam os esclarecimentos prestados à
Procuradoria-Geral da República e segue à disposição da Justiça.
A defesa de Henrique Alves afirmou que não é
verdade que ele tenha recebido qualquer propina de operações da Caixa e
“desafia o delator, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, ou
qualquer outro órgão persecutório, a provarem o contrário.”
De São Paulo, Cleide
Carvalho/Gustavo Schmitt, para O Globo, em 22/09/2017, às 08h04




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