Dois
trêfegos premiaram Temer
Por Teresa Cruvinel (*)
A falsidade e arrogância de
Joesley Batista são espantosas, embora presumíveis. Elas percorrem o fragmento
divulgado pela revista Veja, da conversa de quatro horas entre ele e seu
operador Ricardo Saud, que chama às vezes de Ricardinho. É uma conversa entre
dois trêfegos que, embora planejando alvejar até mesmo a suprema corte,
conseguem produzir um auto-grampo e entregá-lo à Procuradoria Geral da
República. Com tanto dinheiro, podiam ter contratado um operador de áudio. Por
trêfegos, devem perder os benefícios da delação e acabar presos, e conseguiram
premiar Temer com argumentos para escapar da nova denúncia a ser apresentada
pelo procurador-geral, Rodrigo Janot, agora atirado às feras.
Nenhum vício do acordo de
delação suprimirá a gravidades dos fatos já levantados contra o ocupante da
Presidência. Se a denúncia de corrupção passiva foi rejeitada pela Câmara,
Temer deve responder por obstrução da Justiça, por ter incentivado Joesley a
prosseguir com a compra do silêncio de Eduardo Cunha e Lúcio Funaro e o
aliciamento de juízes e procuradores. Deve responder por formação de
organização criminosa, apontado que foi, não só por Joesley, como chefe e líder
do chamado PMDB da Câmara. Nessa organização, tinha papel destacado o
ex-ministro Geddel Vieira Lima, de quem foram encontradas hoje, pela Polícia
Federal, malas de dinheiro ocultas num imóvel. Mas o fato é que, com a licitude
do acordo de delação questionada, Temer e os seus ganharam munição e argumentos
para enterrar a segunda denúncia, que havia adquirido chances de acolhimento
com a crise em sua base. Seus aliados já cobram, como fez hoje o presidente
interino (e da Câmara), Rodrigo Maia, uma rápida decisão de Janot sobre o
destino da delação, embora ele precise aguardar a conclusão das investigações.
O que Janot precisa apresentar logo é a segunda denúncia contra Temer, fazendo
prevalecer a validade das provas, tal como afirmou ontem. Depois, será com o
STF enviá-la ou não à Câmara.

Na conversa entre os dois
trêfegos há falas machistas e vulgares, muito deboche, coisas que não vêm ao
caso. Problema pessoal de Joesley. Ele declara supor-se capaz de ler almas e
mentes mas, no acidente com um gravador, revelou a sua própria. Joesley é o que
sempre foi, e não aquele que aparece na entrevista à revista Veja desta semana,
um convertido às boas práticas, que um dia descobriu ter sido arrastado para o
crime pelos políticos “bandidos”. “Descobri que era um criminoso”. Ou ainda:
“Nós somos empresários e os empresários estão subordinados ao Estado. Se os mandatários
negociam com você daquela forma, você acaba achando que opera dentro de um
padrão de normalidade. A gente vai ficando anestesiado”.
Nenhum político, entretanto,
sugeriu que ele tentasse obter munição contra os ministros do STF, na linha de
sua metáfora: a Odebrecht moeu o Legislativo, nós vamos moer o Judiciário. E
achou que obteria a munição gravando o ex-ministro da Justiça de Dilma, José
Eduardo Cardozo, que deve ter percebido a trampa, disse apenas obviedades sobre
os ministros do Supremo (dos quais só obteve omissão, no curso do golpe contra
Dilma) e não aceitou prestar serviços recebendo “por fora”. Ninguém sugeriu que
omitisse informações na negociação do acordo, como o pagamento de R$ 500 mil ao
deputado Ciro Nogueira. Em certo ponto, o cinismo é rombudo. “O sistema era um,
nois (sic) era um. O sistema mudou, a gente mudou de lado. Somos contra tudo
isso”.
No mais, são fartas as
indicações de que receberam mesmo orientação do ex-procurador Marcello Miller
mas, até onde pude ouvir, nada disseram sobre pagamentos e vantagens indevidas
para o ex-auxiliar de Janot. Este também está perdido. Ajudava o delator antes
mesmo de desligar-se do Ministério Público para tomar posse como sócio de um
escritório que trabalhava para a JBS.
Dois trêfegos, atrapalhados
com um gravador, tentando enganar a PGR, fulminar o Supremo e lacrar o caixão
da política nacional, não apenas se danaram como parecem ter garantido a
sobrevida de Temer até o final de seu mandato, com todo o custo que isso
representa para o Brasil e para os brasileiros.
As conversas já vazadas
obrigam qualquer ouvinte a uma constatação. Se a elite que temos é feita de
Joesleys, estamos fritos.
(*) - Teresa Cruvinel é uma das mais respeitadas jornalistas políticas do País. Artigo publicado em Brasil 247, em 06/09/2017




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