Justiça sem justiça ignora Cármen e envergonha
Temis

Por Ribamar
Fonseca (*)
A deusa grega Temis deve estar
muito envergonhada com o comportamento da Justiça brasileira que, colocada no
banco dos réus em diversos países onde vigora o regime democrático, já foi
condenada por renomados juristas por suas decisões escandalosamente políticas,
que evidenciam dois pesos e duas medidas. Ainda recentemente, o TRF-4 negou o
pedido para a absolvição sumária de Marisa Letícia, já falecida, enquanto o
TRF-2 mandou Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador Sergio Cabral, de volta
para a prisão, mesmo com filhos menores para cuidar. Em compensação, a mulher
do ex-deputado Eduardo Cunha, Claudia Cruz, flagrada com contas no exterior,
sequer foi presa, gozando de liberdade por decisão do juiz Sergio Moro. Por que
se persegue tanto a mulher de Lula, mesmo morta, e a de Cabral e se concede
privilégios à mulher de Cunha? Que Justiça é essa? Não foi isso o que a
ministra Cármen Lúcia disse, há alguns dias, quando declarou que "a
Justiça deve ser igual para todos". Será que ela não está vendo isso ou
simplesmente finge que não vê?
Depois da negativa do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região ao pedido da
defesa do ex-presidente Lula, para absolver sumariamente a sua mulher Marisa
Letícia, morta no início deste ano, alguém ainda tem dúvidas de que aquela Corte
também vai negar o recurso do líder petista contra a sua condenação pelo juiz
Sergio Moro? Lula nunca venceu em nenhuma instância da Justiça, muito menos no
TRF-4, que tem em seus quadros os desembargadores João Gebran Neto e Thompson
Flores, reconhecidos antipetistas, que já se habituaram a confirmar as decisões
do magistrado de Curitiba, do qual são admiradores. É provável, inclusive, que
além de negar o recurso aquela Corte ainda aumente a pena imposta ao
ex-presidente operário, conforme desejam os procuradores da Lava-Jato. Afinal,
desde que o Judiciário se politizou ninguém mais espera que a Justiça faça
realmente Justiça, sobretudo quando os réus são petistas.

Ao contrário do senador Aécio Neves, flagrado pedindo propina ao dono da
JBS e uma mala de dinheiro transportada pelo seu primo, Lula não tem
absolutamente nada que comprove qualquer deslize, apesar de ter a sua vida
revirada do avesso pelos investigadores da Policia Federal e do Ministério
Público. Aécio, no entanto, apesar das provas, foi praticamente absolvido pelo
Supremo Tribunal Federal, onde tem admiradores, enquanto Lula responde a vários
inquéritos e já foi até condenado num deles. A diferença entre eles é que o
senador mineiro é tucano, o que lhe permite cometer impunemente qualquer delito,
enquanto o ex-torneiro mecânico é petista, o que o condena por antecipação.
Tome-se como exemplo o ex-ministro José Dirceu, condenado sem provas no
mensalão e na Lava-Jato, que acaba de ter o seu recurso negado pelo mesmo TRF-4
e pode, inclusive, voltar à prisão.
Além de petistas o ex-governador carioca Anthony Garotinho também virou
alvo da Justiça, preso volta e meia por conta de qualquer coisa.
Desta última vez também prenderam a sua mulher, Rosinha Garotinho, sem
nenhuma justificativa convincente. Como já foi dito inúmeras vezes nesta coluna
vivemos a ditadura da toga, onde juízes sem compromisso com a Justiça mandam
prender por qualquer motivo. E a Policia Federal, cujo novo diretor geral já
assumiu absolvendo Temer da mala de dinheiro transportada por Rocha Loures,
ultimamente não faz outra coisa a não ser cumprir mandados de prisão. E nos
tornamos um Estado policial. "Prendam! Prendam! Prendam!" – virou
quase um mantra para magistrados, que decidiram seguir o exemplo do juiz Sergio
Moro, conquistando também o seu espaço na mídia. Na verdade, ninguém está
preocupado em fazer justiça, mas em atender simpatias ou antipatias políticas,
em muitos casos movidos pela intolerância e pelo ódio que tomaram conta do
país.
A Procuradoria Geral da República, por sua vez, se transformou num
tribunal do Santo Ofício, que por qualquer delação pede a prisão e penas
maiores para petistas e, também, para os que fazem oposição a Temer. Agora
mesmo a nova procuradora Raquel Dodge, que muitos ingenuamente acreditavam isenta,
pediu a condenação da senadora Gleisi Hoffman, presidente do PT, e do seu
marido, o ex-ministro Paulo Bernardo, baseada apenas numa delação, sem qualquer
prova, procedimento leviano observado em quase todos os processos. A diligente
PGR, no entanto, que já revela a sua verdadeira missão, não teve o mesmo
comportamento em relação ao senador Aécio Neves, flagrado pedindo propina, e
muito menos em relação ao presidente golpista, que a nomeou, acusado pelo seu
antecessor de chefiar uma organização criminosa. Também fez vista grossa para
as denúncias contra a Globo, acusada em processo nos Estados Unidos de pagar
propina para obter exclusividade na transmissão de jogos da seleção brasileira.
E preferiu mandar para o MPF do Rio o pedido de investigação feito pelos
partidos de esquerda. Assim ela não se incompatibiliza com os Marinho.
Percebe-se, sem muita dificuldade, que em apenas dois anos Temer montou
uma estrutura de poder que lhe garante – e a seus amigos e aliados – uma
eficiente blindagem contra qualquer tentativa para apeá-lo do Planalto.
Construiu na banda podre do Congresso Nacional, à custa de muito dinheiro, uma
base que o protege contra qualquer inquérito; tem pelo menos dois ministros no
Supremo Tribunal Federal – Gilmar Mendes, seu amigo de 30 anos, e Alexandre de
Moraes, seu ex-ministro da Justiça – que funcionam como pára-raios, sempre
sorteados pela roleta insuspeita da Casa para relatar questões do seu
interesse; nomeou para a PGR uma procuradora que não foi a mais votada pelos
seus colegas para ocupar o cargo, mas certamente foi a que desfrutava da sua
inteira confiança; nomeou para o comando da Policia Federal um delegado,
indicado pelos ministros mais chegados, que já assumiu absolvendo-o da mala de
dinheiro; e, para completar a blindagem, tem o apoio da mídia mercenária,
assegurado a peso de ouro. Diante disso, não será muito fácil desalojá-lo do
Palácio do Planalto, a não ser através de eleições, o que parece ficar mais
distante a cada dia que passa.
(*) - Ribamar Fonseca é jornalista e escritor. Art. Publicado em Brasil 247, em 27/11/2017


Nenhum comentário:
Postar um comentário