Moro tem processos pendentes no CNJ por
supostos desvios como juiz

O
CNJ foi estabelecido em 2005 como parte da reforma judiciária elaborada durante
o primeiro governo Lula (PT). Essa instância tem função administrativa,
dedica-se a planejar metas e repensar a gestão do Judiciário, mas também pode
julgar disciplinarmente os integrantes da Justiça por desvios e violações à Lei
Orgânica da Magistratura.
Qualquer
cidadão pode acionar o CNJ. De seus 15 integrantes, nove são oriundos dos
diversos ramos da magistratura e dois do Ministério Público. O restante é
constituído por dois advogados e dois cidadãos com O ex-juiz federal Sergio
Moro assumirá o comando do Ministério da Justiça sem ter se livrado
completamente dos questionamentos dos quais foi alvo no Conselho Nacional de
Justiça (CNJ). Desde 2014, início da operação Lava Jato, foram abertos contra
ele pelo menos quatro processos. O CNJ não divulga à imprensa o número exato de
representações em que Moro é citado, o que dá a entender que algumas correm em
sigilo.
O
corregedor-geral de Justiça, Humberto Martins, arquivou no início do mês o
processo que questionava a conduta de Moro e outros magistrados no caso do
habeas corpus concedido pelo desembargador Rogério Favreto ao ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em julho deste ano. Na ocasião, o então juiz
federal, em férias, atuou para que a ordem de soltura não fosse executada antes
de outros desembargadores se posicionarem. Martins não viu desvio de conduta
nas ações de nenhum dos envolvidos, incluindo Favreto, que também havia sido
representado.
O
ex-juiz da Lava Jato enfrenta, no entanto, outros questionamentos, incluindo o
próprio fato de ter se comprometido com o governo Bolsonaro sem pedir
exoneração – e, segundo o general Mourão, ter mantido contato com a equipe do
militar reformado ainda durante as eleições. O fato também motivou pedidos da
defesa de Lula para que o processo que levou à condenação do ex-presidente
fosse declarado nulo, dada a suposta parcialidade de Moro.
Antes
disso, o juiz paranaense foi citado no CNJ em processos que questionavam a
divulgação ilegal dos áudios entre Lula e Dilma Rousseff (PT) e a decisão de
dar publicidade a delação de Antonio Palocci durante o período eleitoral. Todos
eles serão analisados posteriormente pelo Conselho.
Instância
administrativa
Jonnas
Esmeraldo, doutor em Direito e membro da Associação Brasileira de Juristas pela
Democracia (ABJD), explica que o CNJ não pode reverter decisões judiciais, por
isso se limita a apurar possíveis desvios de caráter administrativo. Ou seja,
se Moro for punido no CNJ, não há qualquer repercussão sobre os processos
penais julgados por ele.
"É
uma instância de análise disciplinar, não é uma instância recursal como os
tribunais. É uma instância recente, com a função de ser o espaço de análise de
accountability da atuação dos magistrados. Não é nessa instância que processo
pode ser anulado", explica.
Como
se trata de uma instância administrativa, há dúvidas se Moro pode ser julgado
pelo CNJ mesmo após exoneração.
"Essa
é uma questão que vai ser enfrentada. Eu entendo que, se os fatos em questão
aconteceram enquanto ele era magistrado, não seria cabível a não apuração e [o
não] julgamento apenas por ter se exonerado", defende Esmeraldo.
Advogados
que atuam no CNJ ouvidos pelo Brasil de Fato entendem que, apesar do desenho
institucional que favorece posições corporativistas, Martins tem uma postura
mais resolutiva enquanto corregedor do que seus antecessores, preferindo evitar
adiamentos.
A
posição do CNJ por protelar a definição sobre Moro estar ou não sob sua
competência é vista, nesse sentido, como estratégica. Por um lado, não se trata
de um momento favorável para avançar nesse tema, já que o ex-juiz da Lava Jato
está politicamente legitimado. Além disso, a incerteza poderá servir como instrumento
político, mantendo o ex-magistrado em contínua tensão.
Histórico
e composição, conhecimentos jurídicos e
reputação ilibada. O Conselho é presidido pelo presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF) e o cargo de corregedor-geral é sempre ocupado pelo representante
do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Com Brasil de Fato, Brasil
247, em 19/12/2018, às
08h31
(Clic na última imagem para ampliá-la)
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