Queiroz,
suspeito de participar da morte de Marielle, tem o mesmo perfil de ódio pela
esquerda que Ronnie Lessa
Polícia apontou Élcio de Queiroz e Ronnie Lessa como assassinos da vereadora Marielle Franco
e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018 (Foto: Divulgação)
O ex-policial militar Élcio
Vieira de Queiroz, preso pela morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do
motorista Anderson Gomes, pesquisou os perfis de políticos filiados a partidos
de esquerda no Facebook. Para o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), o
interesse por essas contas demonstra que Élcio tinha os mesmos interesses do
amigo Ronnie Lessa, sargento reformado da PM, nutrindo o mesmo ódio a nomes
ligados a siglas de esquerda e movimentos sociais de defesa aos direitos
humanos. Queiroz e Lessa estão presos desde março do ano passado, suspeitos do
crime, na Presídio Federal de Porto Velho, em Rondônia, no norte do estado.
As pesquisas de Queiroz no Facebook estão citadas nas alegações finais que
o MPRJ entregou no dia 18 de dezembro ao juiz Gustavo Kalil, do 4º Tribunal do
Júri da capital, onde tramita o processo de homicídios da vereadora e do
motorista. Em datas anteriores ao crime, ocorrido em 14 de março de 2018, o
ex-policial acessou os perfis do ex-deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e da
deputada Jandira Feghali, entre outros políticos, mas não se interessou pela
conta de Marielle. Para os investigadores, isso é um sinal de que o nome da
vereadora só entrou na mira dos acusados cerca de 15 dias antes do crime.
Embora reeleito para o terceiro mandato em 2018, Wyllys desistiu de tomar
posse em decorrência de ameaças de mortes intensificadas após o duplo
homicídio. Sua vaga foi assumida por David Miranda (PSOL).
Alegações finais é uma fase do processo penal, após o encerramento da
instrução processual, na qual são apresentados os argumentos finais por escrito
da acusação e da defesa. Em seguida, o juiz decide se pronuncia ou não os dois
acusados. A sentença de pronúncia define se existem indícios de crime doloso
contra a vida e que os acusados podem ser os culpados e que, por se tratar de
um crime doloso contra a vida, o processo deve ser julgado por um tribunal do
júri e não por um juiz sozinho.
Investigações da Delegacia de Homicídios da Capital, em parceria com o
Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do MP do
Rio, sustentam que Ronnie Lessa foi o autor dos disparos contra Marielle e
Anderson, provavelmente usando uma submetralhadora MP-5 com uso de silenciador,
enquanto Queiroz dirigia o Cobalt prata de placa clonada, carro ocupado pelos
dois matadores na noite de 14 de março de 2018.
As provas mais relevantes contra Ronnie Lessa também foram obtidas com a
quebra do sigilo de dados telemáticos do computador e dos celulares do sargento
reformado. Dias antes do crime, Lessa pesquisou no Google o endereço de
Marielle e outros locais que ela frequentava (na verdade, o endereço pesquisado
era o apartamento do ex-marido, que constava como sendo a residência na
vereadora do PSOL). O sargento levantou ainda informações sobre o então
deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e outras figuras públicas ligadas a
partidos de esquerda ou a movimentos de direitos humanos, antes mesmo da
vereadora.
Em depoimento ao 4º Tribunal
do Júri, em outubro, Queiroz alegou que o interesse em Jean Wyllys tinha o
objetivo de saber “por curiosidade” se o político havia realmente feito a
promessa de deixar o Brasil, caso o então candidato a presidente Jair Bolsonaro
fosse eleito. O ex-policial, no entanto, negou que tivesse antipatia a
integrantes do PSOL. Para provar que não tem ódio à esquerda, chegou a dizer
que trabalhou para a Prefeitura de Nova Iguaçu na gestão (2005-2010) de Lindbergh Farias,
do PT.
Assim como Lessa, que conhece há 30 anos,
Queiroz alegou inocência. Mas entrou em contradição ao ter que admitir, após
ter negado em depoimento à polícia, que se encontrou com o amigo no dia 14 de
março, cerca de quatro horas antes do crime, na casa de Lessa, no condomínio
Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca. Os advogados dos dois acusados tentaram
suspender o processo alegando que a Justiça do Rio deveria esperar pela decisão
do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a federalização do caso. O juiz
Gustavo Kalil, no entanto, indeferiu o pedido: "Assim, com todas as
vênias, parece-me ilógico suspender a ação penal a pretexto de se aguardar a
decisão do STJ no incidente de deslocamento da competência. Por outro lado, não
se tem notícia se o pedido de deslocamento refere-se apenas à continuidade das
investigações ou se abrange também esta ação pena".
Os assistentes de acusação -
Defensoria Pública, pela família de Marielle, e o escritório de João Tancredo,
pela viúva Mônica Benício - também farão as alegações finais. Em seguida, será
a vez dos memoriais da defesa. O julgamento está previsto para o segundo
semestre deste ano.
Do Rio de Janeiro, por O Globo,
publicado por Yahoo Notícias, em 23.01.2020
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