Por Paulo Moreira Leite (*)
A vitória de Rodrigo Maia na
disputa pela presidência da Câmara de Deputados representa uma tragédia em si
do ponto de vista dos interesses dos trabalhadores e da população pobre mas
seus efeitos daninhos não terminam aí.
Além de instalar um inimigo
assumido dos interesses populares a frente da Câmara, residência do segundo
nome da linha de sucessão presidencial, a votação demonstrou uma insuspeita boa
vontade de integrantes da resistência democrática ao golpe de abril-maio para
negociar seu futuro com o governo interino de Michel Temer, cuja prioridade
absoluta consiste em dobrar as forças que resistem a uma ruptura institucional.
PT e PC do B, as duas principais
colunas da resistência, fraquejaram. O PSOL também.Ao lançar candidatura
própria no primeiro turno, os comunistas e o PSOL ajudaram a derrubar as
ultimas esperanças de conduzir Marcelo Castro -- ex-ministro da Saúde de Dilma,
aliado de Lula em todas as campanhas presidencial e acima de tudo, um voto
contra impeachment em abril -- para o segundo turno. Seria a única chance
real de transformar a escolha do novo presidente da Câmara numa disputa
política de verdade.
A bancada petista votou em
Marcelo Castro com o voto fechado. Mas, quando foram liberados para votar
conforme sua própria cabeça, boa parte dos petistas comportou-se como crianças
que adoram brinquedos proibidas, garantindo apoio a um golpista de primeiro
minuto, sem maiores diferenças com o rival Rogério Rosso e, do ponto de vista
dos adversários do golpe, um grau de periculosidade a mais.
Enquanto Rosso sustentava-se num
líder a caminho acelerado para o cadafalso, Rodrigo Maia expressa a fatia em
ascensão do conservadorismo do DEM, que, com apoio sem remorsos do PSDB, está
destinado a formar a coluna vertebral de um governo Temer. O DEM possui
laços históricos com a continuidade da ditadura e uma lealdade ideológica --
não apenas financeira -- com os setores mais conservadores. Ao menos em teoria,
tem mais fôlego e capacidade de sobrevivência. Mais perigoso, quando se fala de
um mandato de sete meses, portanto. Mais útil para a consolidação do
golpe, obviamente.
É preciso retornar a 1984, quando
o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo Neves para presidente da República, para
se encontrar um caso tão grave e tão importante.
Naquele momento, os parlamentares
do PT que decidiram descumprir a orientação do partido que era não votar em
Tancredo nem em Paulo Maluf foram convidados a retirar-se da legenda.
Você pode ter a opinião que
quiser sobre o voto em Tancredo mas vamos combinar que ele tinha uma
natureza específica. Permitia derrotar o candidato da ditadura e apoiar
um político que, mesmo expressando um grande acordo para conduzir a transição
de acordo com os 1% que sempre governaram país, de farda ou à paisana, tinha um
histórico democrático inegável. Foi ministro de Getúlio Vargas em 1950,
participou do governo parlamentar de João Goulart, votou contra o golpe em
1964. Eu achava que era errado votar em Tancredo mas reconheço que era possível
enxergar argumentos legítimos na defesa de sua candidatura.
O apoio a Rodrigo Maia não tem
nenhuma dessas características. Sua vitória não fortalece a causa da democracia
e da Constituição. Reacionário até a medula, só irá enfraquecer a necessária
resistência ao rolo compressor em curso no Congresso, que pretende eliminar
70 anos de conquistas sociais e progresso econômico e transformar o
Brasil num grande Paraguai.
Como qualquer movimento sem
qualquer razão política compreensível, já que não pode ser defendido em
público, o voto em Maia não é um evento repentino. Pertence ao universo do
cretinismo parlamentar, formado por gestos e decisões que nada significam para
a maioria da população -- apenas um espetáculo de mágicos desmoralizados, que
praticam truques que todos conhecem e não acreditam mais.
A votação de Maia mostrou uma
grande capacidade de adaptação ao golpe por parte de forças que deveriam ser as
mais empenhadas em lhe dar combate sem trégua. Os deputados não serão chamados
a dar o voto definitivo sobre o retorno de Dilma a um posto que lhe pertence
por direito e vontade do povo. Esta decisão será do Senado. Mesmo assim, a votação na Câmara
é preocupante.
(*) - Paulo Moreira Leite é jornalista. Editor de Brasil 247, um dos mais acreditados analistas políticos do País. Artigo publicada em 16/07/2016.



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