QUERIDA RAQUEL
Por Inocêncio Nóbrega (*)
Numa pequena
cidade do interior paraibano cursei o primário, na época o 2º degrau de
graduação no caminho curricular. Sem internet, buscavam-se os livros e seus
melhores autores. Presos ficávamos a mestres
que davam tudo de si para, superando naturais deficiências, a fim de ministrarem
aulas da melhor qualidade possível. No relacionado ao ensino de português -
lembro-me muito bem - no capítulo destinado aos Pronomes de Tratamento
repassavam-nos principais regras quanto ao seu emprego, informal ou protocolar.
Citavam exemplos os mais diversos. “Doutor”, para os portadores de cursos
superiores. Mas, este só pegou para médico, engenheiro e advogado. Os demais,
ficavam por conta da cordialidade. O “senhor” é genérico, porém cheira tempos
de feudalismo.
Expunham-nos
as condições de uso de V. Sa., V. Exa., etc., e outros afins às autoridades,
com destaque para Pres. da República, a única a se referir por extenso e
cerimonialmente por “Vossa Excelência”; no mais poderiam ser abreviadamente.
Não condiz com a verdade, deriva de excelente, o qual significa extremamente bom. Contudo, os tempos evoluíram
e com eles a semântica desse tratamento. De bom censo, ao esclarecido cidadão
brasileiro, que prima pela sua honorabilidade, certamente se sente
desconfortado ao aceitar tal imposição gramatical, perante agentes públicos,
acusados de desvio de credibilidade, por não honrarem os compromissos diante da
sociedade e da Nação.
Parece vício
de linguagem quando Lula preferiu tratar de “querida” a Procuradora da
República, que o interrogava. Foi admoestado a mudar de termo, em obediência a
etiquetas vocabulares cerimoniosas do gênero. Fechar questão em torno dessa
exigência é infantilidade e foge da realidade moral vigente. Quem, de
satisfeito, considerar V. Exa. Romero Jucá (o Suruba), e a alguns outros
senadores e deputados; a ministros e ao próprio Michel Temer, considerados
criminosos da República? Bem assim membros do Judiciário e Ministério Público
do País.
O presidente
Lula sinalizou uma revolução gramatical sem precedentes. Já conta com o aval do
Sen. Roberto Requião. No seu último discurso, o parlamentar pronunciou várias
vezes a expressão “queridos operadores da Lava-Jato”; já apresentou Projeto-de-lei,
disciplinando as chamadas normas cultas e reverências no âmbito do serviço
público. Diz na justificativa incabível num estado democrático, abolindo
“Excelência” por completo. A degradação
moral do País nos leva atualizar essa postura de comportamento. A nova
Procuradora Geral, Raquel Dodge, nomeada por uma caneta criminosa, a despeito
de sua capacidade, não deverá se sentir diminuída tratá-la de “querida Raquel”.
(*) - Inocêncio Nóbrega é Jornalista e Escritor - inocnf@gmail.com. Em 18/09/2015
Rua Viriato de Medeiros, 881 - Sobral (E)


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