Sobre a necessidade de se recompor o
Centro Democrático

Por Daniel
Samam (*)
Na
última segunda-feira (6), o jornalão Folha de S. Paulo publicou o editorial
intitulado "Falta o Centro", onde dizia que nem esquerda, nem
direita, que a saída é o Centro. No atual estágio da crise brasileira, tenho
acordo com a opinião do editorial da família Frias.
Acontece
que muitos do campo de esquerda, no afã de analisarem uma das conjunturas mais
complexas do último período histórico brasileiro, afirmam que o Centro político
não existe mais. Bem como a burguesia nacional e o capital produtivo, pois
afirmam que é um erro dialogar com um setor que está financeirizado e não tem
mais compromisso com a produção. Agimos da mesma forma com as bancadas
religiosas, em especial os evangélicos, por entender que estes são um empecilho
à pauta de costumes, pois são todos reacionários. Acho que não podemos ser tão
estreitos na atual conjuntura.
Fernando
Henrique Cardoso, o oráculo tucano e do neoliberalismo tupiniquim, defende a construção
de um "Pólo Democrático" para enfrentar e derrotar a extrema-direita.
Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara dos Deputados, está num movimento de
puxar o DEM ao Centro, aproveitando a entrada de deputados que podem
desembarcar do PSB. Maia também se posicionou nesta sexta-feira (10) em sua
página no Facebook, contra a proposta que proíbe o aborto até em casos de
estupro, aprovada em comissão especial da Casa, afirmando que a proposta
"não vai passar" no plenário da Casa. Geraldo Alckmin, governador do
Estado de São Paulo, em declarações recentes, disse que a reforma da
previdência é necessária, "mas não pode penalizar os mais pobres".
Afirmou ainda que "liberalismo puro é incivilização". FHC, Maia e
Alckmin se movem, corretamente, para dialogar com o Centro. Como nos exemplos
acima, a direita tem sinalizado constantemente ao Centro.
Já
a esquerda, não. É compreensível que a derrota a partir do impeachment - o
golpe por dentro - desorganizou parcelas do campo que, desorientadas, passaram
a negar a política, a realidade e, sobretudo, a correlação de forças. Sem
contar os que louvam os setores da burocracia estatal antinacional (MP, PF e
setores do Judiciário) que estão destruindo o país.

O
centro político, entendo eu, é polarizado pelo poder e pela expectativa de
poder. Vai mais à esquerda ou à direita dependendo pra onde o vento sopra - a
imagem que ilustra bem é a de uma biruta de um aeroporto. Mas não se trata de
categorizar apenas partidos. No meio de tudo isso existe o povo, o eleitor
médio, de centro, em geral, progressista na economia e conservador nos
costumes. Daí, pergunto: Numa conjuntura tão complexa quanto a que vivemos, e
querendo sair do isolamento, devemos criar pontes ou implodi-las?
Outro
exemplo, o empresariado não adere ao rentismo por ideologia. Eles vão atrás do
lucro, onde quer que este esteja. Se é no rentismo, lá que estarão. Se a
produção volta a dar lucro, voltam a investir. A população de religião
evangélica faz parte da massa popular de beneficiários das políticas sociais de
nossos governos. Pergunto novamente, dialogamos com este grupo ou entramos em
rota de colisão com eles na pauta de costumes?
Enquanto
alguns apostam na radicalização, a direita busca o diálogo com o centro
político e o eleitor médio. O "esquerdismo, a doença infantil do
Comunismo", como dizia Lenin, costuma produzir desastres eleitorais e nos
lançar ao isolamento.
Lula
fez muito bem em sinalizar a intenção de ampliar o diálogo com o Centro na fala
onde "perdoa os golpistas". Não se ganha eleição sozinho, pois no
Brasil se ganha com 50% dos votos mais 1. Hoje, o campo democrático-popular
está restrito a, aproximadamente, 30% do eleitorado brasileiro. E mais, Frente
de Esquerda é auto-afirmação. É sinônimo de derrota e isolamento. Feio não é
fazer alianças programáticas com ex-golpista, é perder as eleições e ver o país
ser destruído.
O
pleito de 2018 será de caráter plebiscitário, ou seja, estabelecerá que país
queremos. Logo, é fundamental a disputa por uma nova maioria política e
programática capaz de retomar o projeto e avançar na construção de um Brasil
mais justo, soberano, solidário e democrático.
(*) Daniel Samam é Músico, Educador e Editor do Blog, Art. Publicado em
Brasil 247, em 13/11/2017




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